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sábado, 26 de janeiro de 2013

[FEITO A MÃO] Rapunzel Século 21




Rafaela está cansada de viver na cidade grande, cansada de ficar enfurnada em seu pequeno apartamento. Mas, ao mesmo tempo, está acomodada demais para se aventurar e sair da torre na qual se trancou por tantos anos. Que lições o mundo lá fora poderá lhe ensinar? 






Rapunzel Século 21

Pela primeira vez, fitando o horizonte através de sua janela no quarto andar, Rafaela notou como as luzes cintilantes dos carros e da cidade, que costumavam encantá-la feito estrelas caídas na terra, assemelhavam-se muito mais a olhos. Olhos felinos, selvagens, observantes; pontos iluminados a espreitar pelas esquinas daquela selva de pedra. Não sabia dizer ao certo se eles a encaravam furiosamente, ou ignoravam-na como se não existisse. Só sabia que as luzinhas a irritavam.
Seu brilho ofuscava as estrelas. Ao olhar para o alto, via um céu escuro e sem luar. Em sua cidade natal, costumava identificar dezenas e dezenas de constelações. Aqui, tinha sorte se visse um único pontinho cósmico naquela seda negra.  E enquanto acima era vácuo, ao seu redor, via-se cercada por prédios que pareciam estender-se ao infinito - tão altos que não podiam ter outro efeito, se não, torná-la ainda mais diminuta.
Mudara-se para a cidade grande aos dezesseis, com um sonho na cabeça e uma amiga em seu braço direito. Agora tinha vinte e cinco, e o destino há muito levara ambos embora. Namorado? Não tinha havia anos. Como, supostamente, deveria conhecer alguém especial num lugar em que os cumprimentos eram trocados apenas por obrigação e os sorrisos tomados com desconfiança?
Ela tragou seu cigarro.
Vivera naquele lugar por tanto tempo que ela mesma havia se tornado tão seca quanto seu ar, tão dura quanto o asfalto das ruas e tão amarga quanto a água que saía pelas torneiras. Aliás, torneiras, as suas, que funcionavam de um modo um tanto quanto descontrolado.
A da cozinha abria, mas só fechava se fosse girada, cuidadosamente, com a mão direita, enquanto a esquerda empurrava o cano para cima. A do banheiro não podia ser aberta, ou inundava o chão feito uma cascata, porque a pia havia saído do lugar e não havia alma viva no mundo que conseguisse concertá-la.
Além disso, ela morria de calor naquele cubículo maldito, mas não podia ligar o ventilador, se não, a lâmpada da sala não acendia. Se abrisse a janela, aquela única na qual se debruçava naquele momento, o pervertido do prédio da frente insistia em tentar atrair sua atenção jogando um laser por qualquer fresta.
Deu um último no cigarro – o mau hábito também só viera recentemente - apagou-o no parapeito e fechou as persianas, antes que o “dito-cujo” notasse que ela estava lá.
Suspirou.
Andou.
Jogou-se no sofá.
Andava de saco cheio. Era esse, e não o apartamento, o problema-mor. De saco cheio, muito cheio daquele lugar. Perguntava-se por quanto tempo ficava enclausurada no cubículo, em sua rotina que ser resumia a nada mais que casa-trabalho-casa.
Não tinha vontade de sair - não achava que valia à pena colocar os pés num mundo tão cinza, povoado por pessoas tão medíocres. E ao mesmo tempo, não queria mais ficar entre quatro paredes. O apartamento era sua casa, mas, em certas horas, parecia ser uma prisão.
Lembrava-se do quanto aquele lugarzinho significava para ela no começo: era a liberdade, era o sonho, e era a independência... Até que um dia já não era mais.
Passava das nove da noite, quando seus olhos pousaram na mochila sobre a mesinha no meio da sala. Uma mala pronta, jogada ali havia uns dias, desde que voltara de um fim de semana na casa uma amiga.
Levantou-se do sofá. Andou até ela. Deixou que os dedos roçassem a alça.
E num ímpeto de decisão que surpreendeu até a ela mesma, Rafaela arrancou a mochila da mesa, colocou-a sobre os ombros e partiu, seguindo seu coração, sem destino definido.
Quer dizer, com destino mais ou menos definido. Ia para a rodoviária, primeiro. Aí lá, lá sim, deixaria mandar os instintos de suas entranhas. Pegaria um ônibus de volta para sua cidadezinha, que não visitava havia quase dois anos, ou talvez para outra cidadela qualquer. A regra era: quanto menos concreto e mais sorrisos, melhor.
Rafaela continuou andando até que os prédios tornaram-se mais baixos, mais escassos e mais afastados. As imponentes construções habitacionais, aos poucos viravam comércio.
Já longe do centro da cidade, viu o mundo com outros olhos. Até mesmo o céu parecia outro. Ela notou que, naquela noite, ele não estava preto, nem mesmo azul escuro como parecia ao ser visto pela janela. Mas irradiava tons de vermelho, que fizeram-na pensar que, talvez, teria sido uma melhor ideia levar uma sombrinha e blusas de frio extras.
Na verdade, a melhor ideia mesmo teria sido não pegar uma mochila com muda de roupa para dois dias apenas, que ainda por cima estavam podres de sujas.
Mas estava feliz que, ao menos, o canivete estava na mochila.
O canivete?!
Sim, o canivete. Andava com um na bolsa desde que sofrera o seu segundo furto. Nunca chegara a usá-lo. Tentara, no terceiro furto, mas deixou-o cair no chão com o nervosismo e, ao abaixar-se para pegá-lo, criou a deixa perfeita para que levassem sua bolsa.  Mas mesmo não sabendo usá-lo e considerando que era uma noite de sexta-feira e as ruas estivessem, relativamente, movimentadas, sentia-se mais segura com ele.
E, segura, ela chegou à rodoviária. Passou pela porta e seguiu em linha reta para o primeiro balcão no qual seus olhos pousaram. Deixava que seus pés a guiassem mais do que seu cérebro.
Havia três pessoas na fila. Parou atrás de uma mulher, de cerca de quarenta anos, que segurava três malas quase do seu tamanho. Espiou, por cima de seu ombro, os destinos da viação. E deve tê-lo feito de um modo um tanto indiscreto, já que a mulher virou para trás e, para a surpresa de Rafaela, sorriu.
— Viagem para a praia?
Rafaela deu ombros.
— Para qualquer lugar, na verdade. Preciso dar um tempo dessa cidade.
— Mora aqui há muitos anos?
— Nove. Você?
— Desde sempre.
— E não se cansa desse lugar e dessas pessoas? — Rafaela fez careta de quem chupou limão. — Não tem vontade de se mudar daqui?
— Ah, não!  — a mulher balançou a cabeça. — Eu amo aqui — o sorriso dela se alargou. — É claro que tem algumas pessoas que desestimulam a viver em cidades grandes, mas pra mim, a maioria dessas não vive aqui de verdade. Só existem, e não fazem muita coisa além de reclamar. Nunca devem ter ido a um ponto turístico, a uma apresentação cultural, ou tomar um café numa livraria. Somos nós que fazemos o lugar, não?
Rafaela sentiu seus olhos baixarem ao chão.
Que tipo de frase porcaria era aquela? A expressão em seu rosto era de quem sentia algum tipo de azia. Saíra do apartamento para escapar um pouco, e agora parecia ter levado um tapa na cara.
— Com licença — disse à mulher.
Caminhou lentamente até a saída da rodoviária. E depois mais rápido ao chegar à rua. Rápido, no ritmo das pessoas à sua volta. Pessoas que sorriam, andavam em bandos, gente feliz com o fim de semana que chegava.
Talvez, Rafaela pensou, ela fosse mesmo o problema. Como era mesmo que diziam? Se vai andar na chuva, é para se molhar. E o que ela vinha fazendo era tentado se esconder sob as marquises. Era ela quem não se encaixava. Ela estava errada, não o lugar. Deixara-se engolir pela rotina. Tornara-se tão amargurada como aqueles que costumava criticar.

E agora a beleza da cidade voltava a tomar-lhe aos olhos. Gostava das luzes, de novo. E das risadas, das músicas de todas as cores que tocavam a cada esquina. Samba daqui, axé dali, e um bom rock numa certa boate, porque isso não podia faltar. Gostava do cheiro das comidinhas botecos, das pipocas dos cinemas, cheiro de shopping – sim, para ela shopping tinha um cheiro próprio - e dos perfumes das moças e rapazes arrumados para sair.
Continuava não gostando do ranger de motores das motos,  das sirenes de ambulância e policiais, ou do cheiro dos sacos enormes de lixo amontoados numa ou outra esquina. Não era uma cidade perfeita, é claro. Mas era como uma música agitada: embora cansativa, quando só escuta, pode ser divertida, se está disposta a dançar junto.
Rafaela chegou de volta ao prédio do qual saíra. Por algum instinto natural recém-adquirido, ela sorriu para o porteiro. Sorriu de verdade, como se estivesse genuinamente agradecida por ter um porteiro tão legal. E o homem lhe sorriu de volta e acenou com a cabeça.
Passou direto pelo elevador, coisa que raramente faria. Se podia evitar silêncios incômodos e desconforto auto infligido, ela o faria. Subiu correndo as escadas.
Entrou no apartamento. Fechou a porta, com todas as trancas, mas abriu uma fresta na janela.  E deixou-a assim pela noite, para deixar entrar o Sol ao amanhecer e para que o mundo lá fora não se esquecesse de chama-la para visitar.  

FIM


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2 comentários:

  1. Achei lindo, Ray.
    Ficou sensível e muito realista, considerando que muito mais pessoas existem do que vivem.
    Amei o título e a descrição da cidade, tudo tão poético!
    Alegrou minha manhã!

    Beijos,
    Mel

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  2. Que texto bacana, Ray. É assim mesmo: "somos nós que fazemos o lugar onde moramos". Quando sentimos que aquele lugar nos acolhe, nos abriga, nos ama, é sempre muito bom! Olhamos com outros olhos, com uma perspectiva totalmente diferente - e positiva.
    Você escreve muito bem! :D

    Beijinhos!

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