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Créditos: http://www.viveresaber.com.br/vs/index.php/conhecimento/489-quando-quem-como-e-onde-fazer-a-carteira-de-identidade-no-brasil- |
Como seria um lar?
O humano Ernesto e, desconhecido para ele, o pequeno vampiro que adotou de uma história da coluna Feito a Mão do blog, “Antropofagia (I e II)”, voltam neste especial de Final de Ano (embora tenha se tornado mais uma continuação desfocada do Final de Ano do que propriamente um especial). Desta vez, os meses e os dias se aproximando do aniversário de Jesus Cristo, o foco se volta ao segundo personagem, quem acompanha o rapaz em sua vida como Alexandre.
II: Falando sobre nomes e nutrição
Pulando o real começo de tudo,
vamos recapitular a parte que deixei à solta antes. Sobre o meu nome novo,
Alexandre, eu indo para o cartório com um outro problemático, Ernesto, e
recebendo minha certidão de registro após ter condição de ser adotado pelo pai
dele. O que nos leva a ter condições de fazer uma carteira de identidade
depois. Processo que me faz sair do último nível do submundo e ser considerado
um cidadão comum.
Desculpe você, mas acho bom fazer
uma segunda interrupção para contar o porquê de eu ter sido chamado de Bisteca.
Não é uma longa história, de verdade: era meu primeiro dia na cidade e eu havia
encontrado justamente aquela rua. Vi alguns mendigos fazendo fogo em um canto
para fazer uma espécie de sopa comunitária. Tinha um gosto horrível, mas é como
uma lei da sobrevivência diz “Faça o que seja dentro de suas limitações se você
não receber auxílio”. Eu me aproximei quando fui abordado pelo próprio Raposa,
um homem alto e com cordão de ouro, quem me empurrou e falou com seu mau hálito
de cerveja e perfume caro:
—
Você parece uma bistequinha de carne vindo pra ser jogado aos cães — disse em
tom de desdém e riu como uma hiena — Pobrezinho, vai morrer logo, logo. Que tal
eu te chamar de Bisteca?
Umedeci
os lábios, preparando-me para o que viria a seguir. Ele me irritou com aquela
insinuação. Eu lembrava – e infelizmente ainda lembro, mas estou conseguindo
esquecer — do nome que meus pais desagradáveis me deram e dos inúmeros apelidos
que me deram em minhas andanças pelo Centro-Oeste ao Sudeste. Ser chamado de Bisteca
estava fora da cogitação para mim naquele momento e respondi isso derrubando
fácil o homem no chão. Infelizmente, o apelido pegou e decidi usar como fosse
meu nome para aquela minha identidade, como eu não queria dar meus outros tantos
para ninguém. Até Jonas não sabe. E pra sua informação, não pretendo dar a
você.
Identidade
era e é uma palavra forte. Eu segurava minha identidade, muito tempo depois:
—
Ainda não tô acreditando. Sério mesmo que está registrado isso? — falei
contente, pondo-a diante de meus olhos enquanto o pai de Ernesto dirigia o
carro em uma rua movimentada e de volta para casa, como Ernesto teve que sair
para o estágio. A rotina dele era casa, estágio, casa, universidade, casa —
Agora posso acessar o hospital em paz.
— Está
sim — sorriu o homem de traços rudes e olhar manso, bagunçando meus cabelos
castanhos claros que herdei de minha mãe — Espero que não se incomode em ter
apenas o pai.
— Tá
tudo bem, senhor — falei com um sorriso tímido, não sentindo incômodo — Ernesto
foi quem queria adotar. Seria estranho sermos um par de pai e filho — “sendo a
pessoa excêntrica que ele é”, contive-me em não acrescentar à informação.
Sobre
ser excêntrica, não, não me refiro à parte de “devorar e ser devorado”.
Refiro-me ao jeito de Ernesto: ser obsessivo em ver informações na internet e
na televisão sobre babás, bebês, crianças e adolescentes. Há a muita vontade de
falar “Mas rapaz, eu sou o adulto aqui”. Contudo, é também divertido ver o
quanto ele é sério para se empenhar em uma tarefa... Como isso é assustador, você
já viu isso.
Um
exemplo é uma das vezes que ele fez um jantar para nós, ele fez uma comida mais
ou menos. Não sei o que aconteceu pra ele ficar de cama no dia seguinte.
Ernesto permanecera com a expressão de dor, tossira bastante e eu havia sentido
um calor em sua testa. “Febre”, eu disse em uma voz alterada de irritação. “Eu
ainda tenho que trabalhar, Bisteca”, ele protestou em uma voz baixa que eu
quase tive compaixão em deixar ele ir naquelas condições. Fiz uma careta. Tive
que “roubar” seu celular e conversar com sua chefe Jéssica, do Tribunal de
Justiça. Aquela foi uma conversa que durou dez minutos (ela falava muito e
queria detalhes de quem eu era, como também a condição dele), mas eu tive a
sensação de que era uma boa pessoa. Ernesto reclamou no fundo do diálogo, mas
ela entendeu e disse “Ah, garoto, tem um dia de folga que o seu amigo não usou
ainda. Eu ficaria agradecida se Ernesto se deixasse a descansar e fosse se
recuperar. Ele é muito cabeça dura”.
Folga
garantida, ele, mesmo aos resmungos baixinhos de teimosia, quis o celular de
volta para telefonar para seu pai. O senhor estava à trabalho. A mãe demonstrou
remorso em se separar do filho quando Ernesto ligou para ela, mas a mulher não
poderia ir conosco. Restou a nós apenas ir atrás de uma única pessoa. Eu, tendo
a aparência de treze anos (argh), não era permitido a ir só na farmácia e fazer
compras: Ernesto dificilmente daria a mão a torcer a me deixar sozinho fora de
casa, apesar de eu ter vindo da rua. Era uma preocupação quase paternal,
aproximando-se da fraternal, que eu queria com todas as minhas forças que fosse
apenas amizade.
“Você
pode ter mais idade do que eu, mas não deixo de pensar que você chegou a perder
a sua infância. Alguém de fora que seja bom seria um começo de ter mais alguém
pra ser seu amigo”, Jonny havia me dito e eu fico irritado o quanto suas
intuições se achavam certas. Eu, agora Alexandre e naquele momento Bisteca,
nunca tinha imaginado tendo uma infância perdida. Entretanto perto de Ernesto
eu sentia como se eu tivesse treze anos de novo e com uma visão de futuro mais
otimista. A disposição dele se tornara perigosa para mim. Era uma benção e uma
maldição. Por outro lado, eu havia me afeiçoado a Ernesto tanto que eu mal percebi
isso até semanas antes daquele dia. Eu desejava não ter aquela afeição que me
prendia e ao mesmo tempo eu me via impossível de sair por querer estar perto
dele. Foi por medo que eu me aproximei da porta vizinha do apartamento. Foi lá
que eu primeiro falei com você, mas isso é uma história que prefiro deixar pra
depois.
Eu
sei que você está ansiosa para essa parte. Espera lá. Você sempre é curiosa
assim?
Caham,
vejamos. Onde é que eu parei? Ah, sim, naquela parte. É só um exemplo do que
costuma acontecer pela teimosia desse homem. Você sabe o resto. Você estava lá
conosco. A parte anterior foi minha conversa com o pai de Ernesto, mas acho que
o que já falei está bom. Você está curiosa de novo. Você quer saber como
consigo sangue e acho que isso é um assunto que eu não deveria comentar, mas...
Eu
ainda tinha minhas vítimas na época até ser chamado de Alexandre. Ernesto tinha
suas suspeitas sobre eu estar com uma doença grave: eu vomitava a maior parte
da comida, como meu estômago não suporta muito alimento comum; “Você parece
estar constantemente com anemia. Já vi seus lábios ficarem com cor, mas também
vi muitas vezes ele e seus olhos parecerem brancos”; o toque na minha pele era
frio e ele desconfiava ser algo em relação ao sangue, como leucemia. Ernesto se
preocupava tanto com minha nutrição que fazia meu almoço junto com meu café da
manhã e guardava na geladeira. “Olha, eu sei esquentar comida no fogão”, contei
a Ernesto para que ele pudesse não se preocupar excessivamente. Eu me contive
muito algumas vezes para não atacar nem ele e aos demais moradores do edifício
ou seus amigos ou até seu pai. Algumas vezes, eu tinha que sair pela janela
para fora e buscar meu alimento à noite. Não me olhe com essa cara. Sangue de
animais pode ajudar, mas sangue de humanos me dava mais força. Sinto muito por
isso, só que era minha necessidade. “Ainda é horrível”, você diz. Eu sei, eu
sei.
Só
que não fiquei assim por muito tempo. Uma hora ou outra a notícia, eu sabia,
chegaria à Ernesto e aos demais moradores do edifício. Ele já desconfiava
bastante antes da carteira de identidade, quando ele não tinha condições de ver
um médico para mim, então imagine quando eu a finalmente recebi. Eu muitas
vezes aparecia com cortes e queimaduras vindas de agressões na rua, o que
preocupavam ele que não sabia das minhas idas secretas.
—
Alexandre — eu me encontrava na frente do nosso computador de mesa — Nome de
Alexandre Magno. Nome de um cara importante russo. Nome de vários caras na
Bíblia. “Protetor do homem”, “o que repele os inimigos”, “defensor da
humanidade”. Cara, por quê você ainda quis que eu me chamasse Alexandre mesmo?
— É
nome de gente importante, eu já disse — Ernesto surgiu em seus pijamas no
quarto que compartilhávamos, cansado após procurar como registrar meu CPF e
também de terminar um relatório para a faculdade — E você tem essa cara de quem
quer se meter em tudo.
—
Oi, deixo bem claro que eu não gosto de aparecer — “E defensor da humanidade?
Isso é muita ironia para um nome só” — Apenas considero por você ter dito que é
nome de gente importante — digitei outro nome no Google, um sorriso meu de
orelha a orelha, cliquei Enter e procurei entre os sites — Ernesto. Significa “Combatente
sério”, “Combatente firme”, “O que batalha até a morte”. Você tem um nome que
combina muito bem com você — apoiei meu cotovelo na escrivaninha e dei risada —
Você teve essa cara séria desde o nascimento para sua mãe te nomear com
Ernesto?
—
Não sei — ele disse, o olhar sério sem querer ser sério e uma mão afagando o
queixo — Era um nome de um escritor que mamãe gostava. É a versão aportuguesada
só. Acho que minha mãe não teve essa intenção.
—
Hã... Ernest Hemingway?
—
Você leu sobre ele?
—
Seu pai leu sobre ele.
—
Ah, meu pai lê sobre ele mesmo — ele fez uma pausa, provavelmente rememorando
que o homem tinha “Por quem os sinos dobram” no carro — Mas eu não sei se foi esse
escritor.
—
Minhas apostas estão todas nele, o cara é ilustre — cruzei os braços, ainda não
convencido que eu estava sendo enganado pela minha intuição — Imagino que sua
mãe queria um nome importante para seu próprio filho também e então pôs esse
nome sem achar como seu filho seria.
— Combatente
sério? — ele arregalou os olhos e fez uma risadinha — Eu não sou tão sério
assim não, Bist—
—
Opa. Alexandre — ele fez uma careta para o nada, provavelmente amaldiçoando
seus velhos hábitos — Mas não fica com essa cara de inconformado não. Vai
demorar para todo mundo se acostumar.
—
Enfim — Ernesto se sentou na cama, uma das mãos apoiando o rosto jovem que foi
envelhecido cedo demais — eu não sou sério.
—
Não foi isso que eu vi quando você achou que tinha um incêndio na vizinha —
estreitei meu olhar, sabendo que ele apenas teimava em se defender — Ou quando
você achou que viu um gatinho que viu em um cartaz de “Procura-se”. E olha que
próxima semana já é o Natal e acho que pra você é quase todo dia.
—
Ok, posso ser sério demais, mas não a esse nível.
—
Você deveria ver como você espanta os ratos e as baratas do apartamento — falei
sarcasticamente, até um pensamento me iluminar — Outra coisa, Ernesto. Você não
acha que não é hora? — nesse momento, ergui meus olhos para fitar os castanhos
dele.
—
Hora de quê?
Suspirei.
Era algo que eu queria falar há muito tempo. Eu me ajeitei na cadeira e
balancei minhas pernas, tendo a menor ideia de como falar disso.
— De
conversar — soltei — É que algumas vezes acho que você precisa desabafar. Eu vi
o olhar que você dirigiu ao túmulo de sua irmã. Você parecia muito triste. Eu
queria dizer só que... Se você quiser chorar a qualquer momento e precisar de
um ombro... Eu estou aqui, tá legal?
Ele
me olhou com aquele olhar sério por dois minutos, fechou os olhos e balançou a
cabeça.
— Eu
não consigo chorar — Ernesto me disse com uma calma que demonstrava rachaduras —
Acho que mesmo se eu quisesse, eu não choraria como eu precisaria.
—
Ah, eu entendo — eu ainda o observei na iluminação do computador e de uma
lâmpada atrás da cama, vendo-o sair e voltar com uma xícara de café amargo.
“Eu
também desaprendi um pouco a chorar”, era o que eu queria dizer quando continuasse
a conversa. Porém, Ernesto deu um gole do café e estalou a língua antes de
dizer:
—
Alexandre — o tom já me preparava: era uma notícia séria — vamos ter que ir com
você para o médico.
Agora
você sabe por quê na geladeira tem sacos de sangue doado e também sobre o
porquê de cientistas estudarem a amostra do meu sangue nesse momento. Para
todos os meus humanos, minha Imortalidade é uma mutação antiga das minhas
células do corpo. Espero que eles consigam resultados com a pesquisa, assim eu
posso estar perto do meu sonho.
Buscar
minha humanidade de volta.
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Thanks for sharing this great post.This is so nice.
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