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Créditos: http://www.tempoagora.com.br/dia-a-dia/chuva-forte-e-de-longa-duracao-vai-atingir-sp-hoje/ |
A artista aspirante Daniela Araújo é convidada por um velho amigo a comparecer a uma pizzaria.
Na primeira parte, nós vimos o convite de João Vitor a Daniela, o receio dela quanto ao amigo dele, Guilherme, e também uma espiadinha em sua família composta pelo pai, mãe e os dois irmãos. Na segunda parte, ela se depara com duas inconveniências e temos visões de algumas das pessoas do ônibus onde ela estava. A terceira parte, rumo ao finalzinho, é só lendo ^^
CORRENDO DOS LOBOS - PARTE III
Era
uma coisa. A coisa que Daniela imaginava se encontrar era a agonia. Agonia em
saber que estava na mesma rua que a pizzaria Sr. Pizza. E também estar se
acobertando com a simples e pequena bolsa de tecido na parada. Outras pessoas
também se espremiam para tomarem posse do espaço do chão que era menos tocado
pela chuva. As mais afortunadas com guarda-chuvas tinham maior liberdade em
escolher a beira para esperarem seus ônibus ou saírem de seus lugares para irem
em seus destinos. O frio vinha nas rajadas de vento do leste, descendo e
trazendo a água da precipitação que jorrava seus pingos e seus raios devido ao
contato com a Terra. As pessoas, então, tentavam se esquivar das “lavadas”
trazidas por esse movimento e pelos carros descuidados que passavam.
O
ocorrido fez Daniela voltar ao tempo para os anos em que costumava tomar banho
de chuva. Era uma coisa: a água escorrendo de seus cabelos, o resfriado que
teria se não tomasse o cuidado de absorver suas vitaminas após o evento, a
roupa e a terra ficando molhada, as brincadeiras que possuía com seus amigos de
infância que também eram seus vizinhos, o sorriso de seu pai e de seus irmãos
quando se juntavam à ela e os bolinhos de chuva de sua mãe que receberiam após
a bronca. Parecia ser um sonho muito bom, mas eram memórias, coisas que
aconteceram em seu passado, e naquele instante ela se sentia o oposto. Água
caiu do asfalto, ultrapassada por uma caminhonete, e quase alcançou seu rosto. Splash, fez o líquido caindo perto de
seus sapatos.
A
noite se encontrava com algumas estrelas próximas e distantes da lua crescente,
apenas um poste de luz iluminando aquela parte da rua e o barulho de várias
músicas transmitidas por um bar ali próximo, onde tocava uma banda de rock e
depois tocaria uma banda de sertanejo.
— Daniela, é você? — de repente, ela ouviu
alguém a chamar de perto.
Ela
se virou com seus cabelos encaracolados grandes e fitou de uma vez três rostos
conhecidos. Um garoto moreno de óculos e camisa que dizia “Never stop trying”,
uma garota de vestido púrpura e um garoto que se chamava Guilherme e estava de
camisa xadrez. Os três partilhavam dois guarda-chuvas, um amarelo como a cor de
pintinhos e outro azul como a cor do fim de tarde. O trio caminhava de uma
outra parada de ônibus a duas quadras de distância, antes de um desvio, e
haviam reconhecido Daniela ao se aproximarem do bolinho humano de gente. Também
tentavam não serem encharcados pelos carros, motos e ônibus que passavam por
perto.
Algumas
luzes, fora o do poste, deixavam que a visão de Daniela ficasse mais ou menos
nítida. Isso não evitava que a metade deles e de alguns passageiros, devido à
incidência de luz e dos ângulos, ficassem com um pouco de penumbra. Cães e gatos
passeavam nos pontos de lixo da vizinhança, abrigando-se ali ou aonde pudessem
estar.
— Há quanto tempo — sorriu a menina, quem se
chamava Inês — A
última vez que nós nos vimos foi na festa da piscina na casa do João. Você está
mais magra, andou fazendo alguma dieta?
— Oi — Thiago, o outro abrigado
pelo guarda-chuva amarelo da menina, disse — Você vai logo cumprimentar a menina falando se
ela faz dieta? — a
sua amiga o devolveu a atenção com um revirar de olhos — Esquenta não, Daniela. Sabe como ela é. Mas
aí, você quer carona com a gente, Dani? Vai demorar para essa chuva se amenizar
e é melhor você ir conosco.
— Tudo bem — Daniela respondeu, nervosa
por perceber que Guilherme parecia estar com uma expressão calma no rosto e ele
estava a encarando detrás dos outros dois — Eu não quero incomodar — mas pelo olhar que Thiago a direcionava preocupado,
sabia que não cederiam o convite tão cedo.
— Que é isso, tem incômodo
nenhum — sinalizou
ele com uma das mãos —
Tem um espaço no guarda-chuva do Gui.
— Guilherme — um brilho de atrevimento
iluminou o olhar e a face de Inês — faz um favor e pega no braço dela. Eu não tenho um pingo de
vontade de deixar essa menina aqui.
Daniela
achou que Guilherme não corresponderia, enviaria uma mensagem com os olhos do
tipo “Ir com essa menina de mamãe? Não, obrigado”. Ela sentia que ele não
perdoaria o comentário que fizessem sobre seu irmão. Mas foi surpreendida que
ele deu uma volta ao redor dos dois para a alcançar, esperou que ela retirasse
a bolsa da cabeça (e percebeu Guilherme a mandando uma expressão de
estranhamento, não negativa), enfiou seu braço livre embaixo do dela e a levou
para o lado de seus amigos.
— Agora vamos — Thiago pareceu satisfeito
ao ver eles quatro juntos e virou as costas para voltar a andar na calçada — E aí, Daniela, como foi
seu dia? — ele não
estava olhando na direção dela e esperou, ciente da discussão que aconteceu
entre dois dos seus companheiros.
Daniela,
primeiro, não respondeu. Ela se sentia constrangida por ser levada daquela
maneira, embora mais tarde desse um motivo positivo a mais ao enxergar que o
guarda-chuva conseguia proteger melhor seus dois corpos. Depois, lançou um
olhar na direção dele com uma sobrancelha arqueada, seu pensamento sendo “O que
está acontecendo?”. Ele inicialmente não viu seu movimento, seu olhar na frente
e conversando com Inês sobre o jogo daquele dia (ambos eram fãs de futebol e
torciam para o mesmo time), até notar o silêncio e voltar seu olhar para a
indagação silenciosa. “Você é uma cabecinha muito teimosa” pensou ao estreitar
os olhos e suspirar inconscientemente, mas ela interpretou como sinais de “Você
vai deixar o que aconteceu para trás ou não?”.
Desconhecido
à Daniela, Guilherme ainda gostava dela. A discussão não apagava a admiração,
que ele nunca admitiria, pela beleza da garota que ficou com alguns traços mais
maduros e permanecia com um sorriso que o trazia boas sensações. Poderia
admitir que seu irmão teve um mau momento na época, influenciado por amigos a
consumir drogas, mas ainda não recebia bem críticas à sua família e assim foi
quando soube da recomendação da mãe da garota, quem explicitou em uma conversa
com a mãe dele e a deixou irritada com o mau tratamento. Ele não queria estar
com raiva no dia que foi desabafar irado com Daniela, mas ela não recebeu
também muito bem as alfinetadas, ficou transtornada quando ele xingou a mãe
dela e desde então havia um clima tenso entre os dois. Naquele dia, entretanto,
começava a achar que foi bom João Vitor ainda os querer próximos um do outro,
pois sua raiva não estava mais nele e nem a raiva dela. Precisavam apenas
conversar e remendar o laço que possuíam.
— Foi mais ou menos bem.
Eu estava pintando algumas telas e o João me ligou falando do rodízio — contou — Daí vim de ônibus.
— É mesmo, você tinha nos dito já que
pinta quadros — Thiago fez um olhar vago, rememorando — Eu esqueci de dizer,
mas fui a uma exposição de seus quadros. Você estava pintando na hora e eu
tinha parado ali de repente, como eu ia me encontrar com uma pessoa do meu
curso de Música, mas vi que você tinha pintado uns de flores. Impressão minha
ou você gosta de plantas?
Ela voltou a memória. Teria sido a
exposição de Julho? Não foi somente dela, foi de outros artistas também que se
juntaram. Cerca de doze artistas fizeram uma exposição em uma praça do Centro,
microempreendedores fizeram um bazar e conseguiram que duas bandas locais
tocassem pela noite. Naquele dia, ela contava com a ajuda da mãe que ficava
cuidando de suas obras quando ela ia buscar algo para que comessem. O lucro do
dia fora consideravelmente bom.
— Gosto de plantas, mas nada muito
especial — falou sorridente, achando engraçado que não era a primeira vez que
ouvia dizerem isso — Acho elas legais pra pintar.
— Hum — fez Thiago, com a mente em outras
questões fora dos quatro e se desdobrando para imagens mentais de seu pai
adoentado.
— Espera um minuto, mais
ou menos? — Inês
parou de conversar sobre futebol, querendo saber e piscou seus olhos grandes e
escuros — O que
aconteceu enquanto isso, Daniela?
Ela
virou seu olhar para a lua. Achou-a bonita e teve vontade de fotografá-la.
— Ah, é que o ônibus onde
eu estava foi assaltado —
começou Daniela.
Três
pares de olhos a espiaram cuidadosamente.
— Pera, você foi
assaltada? — era a
vez de Guilherme interrogar, preocupando-se.
— Não, graças a Deus não
levaram nada meu —
ela completou mentalmente com um “Ele estava apressado” — Mas o cara levou relógios e celulares de
algumas pessoas que estavam no ônibus. Não levou mais porquê alguém de fora
chamou a polícia e eles ouviram sirenes.
— Tenho quase certeza que
foi essa bolsa a razão
pela qual não levaram —
Inês encarou o assessório por alguns momentos — É bem simplesinha. E você ainda tem essa cara
cansada. Acho que ele, seja lá quem foi esse carinha, deve ter tido talvez
pena.
— Ou não — Guilherme retorquiu, não acreditando
muito que bandidos tivessem compaixão pelas experiências de ser roubado que ele
teve — Tem gente que
não tem muito respeito, Inês. Já vi casos de moleques perto de casa roubando
idosos e estudantes.
— Não fale assim — Inês disse — Tem gente que não se vê
com outra escolha.
— Cara, tem gente honesta e trabalhadora
que não tem o salário de um rico, mas trabalha e consegue seu sustento.
— O bom de hoje foi que Daniela está sã e
salvo graças ao Senhor — Thiago tentou apartar o conflito para todos voltarem
na paz, mas Inês e Guilherme continuaram no bate-boca até a outra se lembrar:
— E um senhor me abordou — pausa — Foi estranho.
— Ai, amiga, tem uns
tarados mesmo nas ruas —
Inês fez uma cara de asco para as suas memórias de olhares perigosos de homens
anos e anos mais velho que ela — Ele não te agrediu, te agrediu?
— Ele só fez algumas
perguntas antes de um rapaz chamado Gabriel e um outro senhor me ajudarem — lembrou Daniela — Daí ele foi falar com
outra menina. Na verdade, a outra menina também falou com ele.
— Tem gente que não
aprende mesmo —
Guilherme fez careta —
Mas vem cá, esse Gabriel... Como você sabe o nome dele?
— Tinha na camisa dele — esclareceu Daniela — O senhor... Não, rapaz,
Enzo, Enzo Cavalcante —
nenhum dos três teceu qualquer comentário que desse a entender que conheciam o
nome — tinha lido em
voz alta.
— Esse Gabriel, hum, é
alto? — começou
Guilherme.
— Sim.
— Cabelo curto, moreno,
tinha dois irmãos? Ele costuma andar com eles por aí. Duas crianças.
— Tinha duas crianças
perto dele, não sei se são irmãos dele ou se estamos falando da mesma pessoa...
— Foi o anjo da Daniela,
vamos dizer assim —
Thiago disse, embora também desconfiasse se tratar de um conhecido, como ele
estudara no mesmo colégio que os dois — Olhem, a pizzaria está logo ali — indicou com a mão, como viu os outros três
imersos nos lados para ver sinais de alguém suspeito.
CONTINUA...
Tem desenho, tem música, tem conto, tem poema e deseja mostrar sua arte e literatura com a gente no blog? Não deixe de enviar para nosso e-mail contatonra@gmail.com =)
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