Observações: Lucie está viva após terminar o seu provável último trabalho universitário. Apesar de eu
conhecer várias Julianas, escolhi o nome pelo seu significado e por combinar
com a personalidade da mãe de Ricardo :) É também uma história curta que antecederá outra série (isso mesmo, meus amigos, se preparem!).
Resumo: Juliana Delgado,
sobrenome de solteira Almeida, conversa com seu esposo Guilherme sobre ser mãe
do filho primogênito Ricardo.
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Uma imagem para ilustrar a família :) Fonte: Adobe Stock |
RELEMBRANÇAS
Capítulo Único - Protótipo
- Eu não disse ao
universo para ser mãe – foi o que eu contei a ele – Mas parece que o universo
tem outros planos para mim, não acha?
- Juli – com carinho, o
homem me chamou com um sorriso parecido com o que ele tinha quando o conheci –
você falando assim... Até demonstra que está tentando se assegurar com a situação
agora – olhei para o fogo que fora acendido no fogão antigo de nossa cozinha e
devaneei.
Estávamos quebrados.
Nosso financeiro tinha se quebrado. Meu marido havia sido demitido como
atendente de uma loja de sapatos por causa da reclamação de duas jovens arrogantes.
Queria muito ter estado na hora para provar a inocência dele – e como ele era
inocente, tão semelhante à nossa criança! – e ter estapeado os dois seres gosmentos
vestidos de adolescentes.
Mas não podia por causa da
minha cria. Do meu filho, o nosso filho. Como mãe, devia dar o meu melhor para
manter meu filho sob minhas vistas. Era ali o seu lugar enquanto fosse um
projeto de gente.
- O importante, Juli –
percebendo que eu não respondia à realidade, Guilherme pôs uma de suas mãos num
ombro meu para tentar me acalmar – é que estamos nessa juntos. Posso arranjar
um bico na empresa do meu irmão. Posso trabalhar como um entregador de pizzas
aqui em Goiás. Não é necessário Ricardo saber disso, é claro.
- Claro que ele não deve
saber, idiota – mexi no macarrão da panela com uma colher de madeira – Sabe
como nosso filho tem muita sensibilidade – fiz uma longa pausa antes de
continuar a falar – Tem vezes que não sei como consegui ser a mãe que sou hoje,
porém, tenho confiança que tudo ficará bem. Minha preocupação é mais se eu não
deveria fazer alguma coisa.
- Como o quê? – ele afastou
a mão e passou a se distrair em mexer o picadinho que fritava em uma frigideira.
- Trabalhar – bati a
colher de leve na panela e notei minha voz deixar claro minha irritação –
Arrumar um emprego. Posso perguntar do bar do Seu Tomé se ainda há vagas para atrações
musicais – olhei séria para meu marido e Guilherme pareceu ficar com os olhos castanhos
alertas quanto a proposta – Lembro... Lembro bem na época dos meus 22 que eu afiava
a voz, recebia bons trocados dos senhores que iam ao bar. E Seu Tomé gosta de
mim como quase filha dele.
- É verdade – Guilherme
riu e abaixou o fogo, com certeza com medo de queimar uma parte da nossa ceia –
O velho não conseguiu uma filha com a mulher, então te adotou, né? Mas fica
esperta com a dona. Essa dona é brava que só...
- Não consigo pensar em como
retribuir os dois, falando nisso – prolonguei o assunto, hábil em saber que precisaria
de oito minutos para a massa ficar pronta – Quando Ricardo nasceu, eles foram
os primeiros a nos prestar apoio e dar um presente. O primeiro berço do nosso
filho. Cantar de novo seria uma ótima desculpa, se não fosse uma questão...
- Qual? – ele foi até a
geladeira, abriu e encarou a parte de baixo na procura de algo para temperar.
- Com quem deixar nosso
filho – respondi, tampando a panela do macarrão – Você sabe que não confio em
ninguém além de nós dois para cuidar dele.
Houve um silêncio
significativo, mesmo quando Guilherme encontrou uma cebola, um alho e um
pimentão. Eu não poderia ser a única a lembrar da última treta que aconteceu
entre nós e a escola particular que nos esforçamos para pagar naquele ano.
Nenhum de nós sabia qual era a insistência dos professores incompetentes em não
se colocarem no lugar de uma criança como a nossa.
Tá, tá certo que nosso
filho se destacava entre os outros por... suas únicas características. Ele via
coisas que não estavam nos nossos olhos, sentia coisas que nós não percebíamos
com qualquer exame existente e ouvia coisas diversas e absurdas. A psiquiatra
que encontramos o categorizou como uma criança esquizofrênica. Não sou
religiosa, só que... Tem coisas que falam que é esquizofrenia, mas não fazem
sentido.
Como meu filho ainda bebê
chorou antes de um raio atingir minha mãe que o segurava na praia?
Como meu filho, com dois
anos, detectava quando seu pai vinha do trabalho?
Como meu filho, com sete
anos, sabia onde estava guardado o urso de pelúcia de uma menina que ele mal teve
tempo de conhecer na escola passada?
Mais: apesar das consultas
psicológicas – as que faço questão de acompanhar – e dos esforços de todos os
médicos para onde formos, os remédios não fazem muito efeito para controlar o
que ele vê, sente e escuta.
Por isso, Ricardo é
considerado fracote por cada grupo de minivalentões que existia em todas as
escolas para as quais formos. Presa fácil. Devido a essa situação, eu tento ser
mais incisiva e rígida com ele para que ele seja forte. Um menino forte que eu
sei que ele se tornará. Muitas mães, pagando de boazinhas e bons costumes,
dizem que sou fria por causa disso. Ah, que cuidem dos seus! Só queria ver
minha cria, filho do meu sangue, não ter que se achar o pior das criaturas por
causa do inferno que os filhos delas faziam!
Mas nem sempre a situação
ficava sob meu controle. Nosso controle. Guilherme é mais gentil, mais brando,
mais parceiro. Ele ouvia as dificuldades de Ricardo e muitas vezes intervia na
minha mão espartana quando achava necessário. Às vezes, eu precisava dessa
intervenção para sair do meu personagem. Para poder parar.
- Você é a melhor pessoa
que pode cuidar dele – meu marido já picava os legumes para colocar no
picadinho – Eu acredito em você. Só acho muitas vezes você dura, mas sei que
você se importa com ele e o conhece melhor. Até conhece melhor do que eu.
- Jura? – estreitei os meus
olhos – Eu não sei não.
Apesar das dificuldades, pensei,
até que não era ruim ter uma família como aquela.
FIM
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