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Créditos: http://www.inape.org.br/colunas/fisica-conceito-historia/gota-chuva-movimento-nao-tao-livre |
A artista aspirante Daniela Araújo é
convidada por um velho amigo a comparecer a uma pizzaria.
Na primeira parte, nós vimos o convite de João Vitor a Daniela, o receio dela quanto ao amigo dele, Guilherme, e também uma espiadinha em sua família composta pelo pai, mãe e os dois irmãos. E agora... Bom, somente lendo :)
CORRENDO DOS LOBOS - PARTE II
— Boa tarde — disse a jovem à cobradora
antes de mostrar sua carteirinha.
— Boa noite, menina — respondeu a mulher que
parecia ter seus quarenta a cinquenta anos — Já está tarde para se dizer boa tarde.
Daniela
deu uma risadinha acanhada assim que a catraca foi liberada para ela passar,
mas logo parou ao enxergar o ônibus com as pessoas em quase todos os espaços
possíveis do interior do veículo. Encostou-se na parte de trás do ônibus, detrás
de um homem de meia idade e de uma outra garota de idade aproximada a dela.
Um
rapaz de boas vestes vinha da parada seguinte á dela e três dos passageiros
notaram que ele tinha um volume saliente em um dos lados dos bolsos. Assim que
foi liberado, esperou dez minutos para observar a movimentação das pessoas a
bordo e então sacou seu pequeno revólver. Não havia alguém com habilidades
especiais e nem uma Super Pessoa para contê-lo. A história poderia ficar
bastante interessante com este ingrediente, mas infelizmente esta ficção tenta
ficar mais perto da realidade e na nossa realidade tais pessoas não costumam
existir fora das definições de um ser humano comum.
O
pânico afligiu os usuários por alguns minutos enquanto o bandido andava entre
as cadeiras para ver objetos de valor. Por sorte, Daniela escapou do assalto
devido a pressa dele. Alguém fora do ônibus percebeu a ação, além do acompanhamento
de um motociclista suspeito, e chamou a polícia. Um grande alívio se instalou
no automóvel com a saída dele, mas a garota, Daniela, ficou ainda pensando por
5 minutos o que aconteceria se ele não tivesse saído. Ela viu o olhar que o
homem possuía. Era um calmo que se tornou ferino em sua irritação. Uma mulher
com a farda de um supermercado comentou que faria um Boletim de Ocorrência em
voz alta e saiu cinco quadras depois, acompanhada de quatro amigas que também
foram roubadas pelo assaltante.
Daniela
gostaria muitíssimo de sair o mais cedo até seu destino, mas um
congestionamento em uma avenida da rota do ônibus atrapalhou seus planos.
Calculou que eram 15 minutos a cada metro rodado, mais ou menos, até chegarem a
um ponto onde muitos se acumularam no lado esquerdo para verem a cena de um
acidente. Alguns poucos tiraram seus celulares para fotografar o incidente. Um
par de crianças se mantinha desatenta a esse detalhe, seus olhos se focando em
seus cadernos. Seus lápis, notou Daniela que mantinha um olhar preocupado na
dupla, estavam em mãos e eles pareciam estar pensando em alguma redação. Um
idoso atrás dos dois resmungava sobre a incapacidade de se ter um trânsito mais
rápido e fez reclamações do governo, citando problemas em sua própria rua que
parecia uma esquecida das propagandas da televisão.
— Oi, senhorita.
— Hum?
— Você está sozinha? — Daniela se virou para sua
direita e fitou um rosto de um estranho.
Sua mãe a recomendara não
conversar com um desconhecido, então ela se manteve quieta. Ela também se
manteve atenta a aquele par de olhos castanhos que pareciam a querer engolir
viva. O homem era consideravelmente bonito e até tinha terno, gravata e sapatos
de couro. Mas algo em sua postura e em seu interesse rápido a enviaram alarmes
vermelhos de precaução. Ela não sabia explicar. Tensa podia estar, mas a
sanidade não se desequilibrara a ponto de não conseguir distinguir um desejo
genuíno de ajuda.
— Peço perdão por
assustá-la — ele
alargou seu sorriso, um que ela identificou como sendo de um predador — Mas é que aconteceu tudo
de repente, sabe? E o menino veio depois de você e fiquei com medo de você
poder ir sozinha por aí.
“Não
sorria”, pensou ela, tentando se concentrar em um shopping por onde o ônibus
passava, “Não olhe. Faltam seis paradas. Depois das seis, é a minha deixa”.
— Você é uma menina tímida? — o homem teve quase certeza que era: afinal, ele
trabalhava, tinha boa aparência e bons olhos para pessoas que considerava
legais. Achava-se um homem bom, um bom homem, uma boa pessoa. Aquela negação
poderia ser apenas timidez, imaginou, ainda que se esforçasse para não
perguntar se ela era muda.
— Melhor você a deixar em
paz — o idoso atrás
dos meninos enviou um olhar sério para o homem. E ele, pai de quatro jovens que
andaram muito de ônibus em suas vidas de solteiras, pensou aborrecido “Conheço
bem o que está acontecendo. Esses olhos grandes, essa boca grande e esses
dentes aparecendo não me enganam. Ela não iria responder tão fácil, se ela
percebeu” — Olha
aqui, rapazinho. Se ela não quer papo, isso significa fim de papo.
— Ela não disse isso — falou o que se achava um
bom homem, interrogando-se mentalmente se aquelas pessoas não sabiam de quem
ele era filho e que sim, estava sendo um bom homem, e mais do que isso, um
homem respeitável —
Além disso, essa blusa vermelha cai bem em você...
“Essa conversa tá indo pra um rumo muito
esquisito”, foi a primeira coisa que Daniela pensou antes de se ver forçada a
romper a conversa:
— Por gentileza, será que
você poderia parar de conversar comigo?
— Por que não? Isso seria
uma grosseria, eu quero muito ajudar você.
— Você é um estranho.
— Eu me chamo Enzo
Cavalcante — ele
retornou a sorrir para ela —
Agora, não sou mais um estranho. Qual é o seu nome?
— Bom, Enzo Cavalcante — um rapaz ali próximo
disse da forma mais tranquila possível — também não é muito educado forçar a barra.
— Gabriel — o homem leu a parte de
trás da camisa esportiva que o menino usava — também não é muito educado interromper. Você
também é um estranho para essa menina.
No
espaço em que a sua voz e dos passageiros não ocupavam, ouviam-se buzinas por
cinco segundos. Na parte da frente do ônibus, pessoas idosas e uma gestante
percebiam junto com o motorista uma demora, ainda que menor que a anterior, nos
veículos. Várias pessoas nas passarelas atravessavam ruas. Havia venda de
camelôs lá embaixo, como também a vigia de policiais em quem fosse suspeito de
estar cometendo um crime. O semáforo indicava a cor vermelha.
— Sim, ele é um estranho — indignada com a
declaração, Daniela se pôs a defender o garoto — mas eu pedi pra você desconversar. Então, por
favor?
Naquele
momento, gotas de água começaram a aparecer nas vidraças da janela. Quem não
estivesse prestando atenção na conversa e atentasse seus olhos para o céu
daquele bom dia de outubro, poderia ver as nuvens cinzentas ficando cada vez
mais carregadas e um raio dançando em zigue-zague rompeu no chão. Uma dos dois
garotos viu o ocorrido e apontou com o cuidado de não ultrapassar seu braço da
janela. “Olha, raio”, anunciou para ninguém em particular.
— Está bem, está bem — mais pessoas davam atenção à cena, algo que Enzo considerou
desagradável e Gabriel, o irmão das duas crianças, satisfatório — Peço desculpas — “completamente não”, ele
acrescentou contrariado em sua mente.
Desconhecido
tanto à Enzo como à Daniela, Gabriel não era exatamente um desconhecido.
Estudara no mesmo colégio dela e já a vira várias vezes, razão pela qual se
apressou em defende-la. Ele percebeu que ela não o reconhecera, mas ela havia o
ajudado três vezes quando algum material escolar caia de sua bolsa, na época
com problemas no zíper. Ele não se considerava um bom rapaz, mas, aos olhos do
idoso e de alguns que observaram a discussão, era alguém mais respeitável que
Enzo. Outras se encantaram com o look
atraente de Enzo e uma chegou a responder suas perguntas, apesar de um olho
dele plantar entre Gabriel e Daniela. Notando que o garoto espiava
silenciosamente, mas sem ter respostas e não demonstrando reação negativa,
deixou-o safisfeito e insatisfeito ao mesmo tempo.
Dois
garotos e uma garota, todos universitários, aproveitaram o momento para colocar
a situação como exemplo do porquê as pessoas precisam do feminismo e um casal
distorceu suas expressões em desgosto por ouvirem a palavra, um deles fazendo
críticas ao movimento dentro de seus debates mentais. Já uma mulher interpretou
o bate-papo com uma má interpretação por parte de Daniela, Gabriel e o idoso,
achando que Enzo tinha a atitude de um cavaleiro que era acostumada a ver em
seu tempo. Um outro homem tinha uma visão similar, embora considerasse mulheres
como classe inferior, e acrescentou em seu pensamento “Essa menina parece uma
ratinha”. Outros continuaram suas vidas sem ter o acontecimento em mente, imersos
em suas próprias preocupações muitas vezes silenciosas.
“Droga,
por quê eu esqueci de não ter trazido meu guarda-chuva?”, essa passou a ser a
preocupação de Daniela. Passado o sufoco com o assalto e Enzo (ela sentiu que
ele parou de dá-la atenção), observou que o começo de noite raiava e
chuviscava. O vento ruía baixinho e esfriava parcialmente dentro do veículo. Algumas
pessoas preparavam seus guarda-chuvas. Faltavam duas paradas para Daniela
descer. Ela não se viu sem escolha, olhando como seu único escudo sua própria
bolsa. Não era um tempo a se contar com cavalheirismo, já que muitas vezes o
verdadeiro cavaleiro surge com uma armadura inesperada.
O
ônibus não se encontrava tão lotado como antes. Agachou-se e sentiu algo seco
em sua mão. Espiou e viu que se esquecera de limpar uma mancha de tinta verde.
Encaminhara-se, raspando os vestígios da substância com suas unhas, para o
outro lado, onde havia a porta de saída. Um senhor tossia bastante na sua
direita, acompanhado de seu parceiro mal-humorado. Ela esperou uma parada,
pegou a bolsa para tentar proteger a cabeça e saiu na parada seguinte, vendo-se
na rua da pizzaria.
Mas,
por outro lado, a chuva não era muito misericordiosa.
CONTINUA...
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