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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

[FEITO A MÃO] Nostalgia - Parte II




Créditos: http://www.viveresaber.com.br/vs/index.php/conhecimento/489-quando-quem-como-e-onde-fazer-a-carteira-de-identidade-no-brasil-


Como seria um lar?
O humano Ernesto e, desconhecido para ele, o pequeno vampiro que adotou de uma história da coluna Feito a Mão do blog, “Antropofagia (I e II)”, voltam neste especial de Final de Ano (embora tenha se tornado mais uma continuação desfocada do Final de Ano do que propriamente um especial). Desta vez, os meses e os dias se aproximando do aniversário de Jesus Cristo, o foco se volta ao segundo personagem, quem acompanha o rapaz em sua vida como Alexandre.

NOSTALGIA
II: Falando sobre nomes e nutrição
Pulando o real começo de tudo, vamos recapitular a parte que deixei à solta antes. Sobre o meu nome novo, Alexandre, eu indo para o cartório com um outro problemático, Ernesto, e recebendo minha certidão de registro após ter condição de ser adotado pelo pai dele. O que nos leva a ter condições de fazer uma carteira de identidade depois. Processo que me faz sair do último nível do submundo e ser considerado um cidadão comum.
Desculpe você, mas acho bom fazer uma segunda interrupção para contar o porquê de eu ter sido chamado de Bisteca. Não é uma longa história, de verdade: era meu primeiro dia na cidade e eu havia encontrado justamente aquela rua. Vi alguns mendigos fazendo fogo em um canto para fazer uma espécie de sopa comunitária. Tinha um gosto horrível, mas é como uma lei da sobrevivência diz “Faça o que seja dentro de suas limitações se você não receber auxílio”. Eu me aproximei quando fui abordado pelo próprio Raposa, um homem alto e com cordão de ouro, quem me empurrou e falou com seu mau hálito de cerveja e perfume caro:
— Você parece uma bistequinha de carne vindo pra ser jogado aos cães — disse em tom de desdém e riu como uma hiena — Pobrezinho, vai morrer logo, logo. Que tal eu te chamar de Bisteca?
Umedeci os lábios, preparando-me para o que viria a seguir. Ele me irritou com aquela insinuação. Eu lembrava – e infelizmente ainda lembro, mas estou conseguindo esquecer — do nome que meus pais desagradáveis me deram e dos inúmeros apelidos que me deram em minhas andanças pelo Centro-Oeste ao Sudeste. Ser chamado de Bisteca estava fora da cogitação para mim naquele momento e respondi isso derrubando fácil o homem no chão. Infelizmente, o apelido pegou e decidi usar como fosse meu nome para aquela minha identidade, como eu não queria dar meus outros tantos para ninguém. Até Jonas não sabe. E pra sua informação, não pretendo dar a você.
Identidade era e é uma palavra forte. Eu segurava minha identidade, muito tempo depois:
— Ainda não tô acreditando. Sério mesmo que está registrado isso? — falei contente, pondo-a diante de meus olhos enquanto o pai de Ernesto dirigia o carro em uma rua movimentada e de volta para casa, como Ernesto teve que sair para o estágio. A rotina dele era casa, estágio, casa, universidade, casa — Agora posso acessar o hospital em paz.
— Está sim — sorriu o homem de traços rudes e olhar manso, bagunçando meus cabelos castanhos claros que herdei de minha mãe — Espero que não se incomode em ter apenas o pai.
— Tá tudo bem, senhor — falei com um sorriso tímido, não sentindo incômodo — Ernesto foi quem queria adotar. Seria estranho sermos um par de pai e filho — “sendo a pessoa excêntrica que ele é”, contive-me em não acrescentar à informação.
Sobre ser excêntrica, não, não me refiro à parte de “devorar e ser devorado”. Refiro-me ao jeito de Ernesto: ser obsessivo em ver informações na internet e na televisão sobre babás, bebês, crianças e adolescentes. Há a muita vontade de falar “Mas rapaz, eu sou o adulto aqui”. Contudo, é também divertido ver o quanto ele é sério para se empenhar em uma tarefa... Como isso é assustador, você já viu isso.
Um exemplo é uma das vezes que ele fez um jantar para nós, ele fez uma comida mais ou menos. Não sei o que aconteceu pra ele ficar de cama no dia seguinte. Ernesto permanecera com a expressão de dor, tossira bastante e eu havia sentido um calor em sua testa. “Febre”, eu disse em uma voz alterada de irritação. “Eu ainda tenho que trabalhar, Bisteca”, ele protestou em uma voz baixa que eu quase tive compaixão em deixar ele ir naquelas condições. Fiz uma careta. Tive que “roubar” seu celular e conversar com sua chefe Jéssica, do Tribunal de Justiça. Aquela foi uma conversa que durou dez minutos (ela falava muito e queria detalhes de quem eu era, como também a condição dele), mas eu tive a sensação de que era uma boa pessoa. Ernesto reclamou no fundo do diálogo, mas ela entendeu e disse “Ah, garoto, tem um dia de folga que o seu amigo não usou ainda. Eu ficaria agradecida se Ernesto se deixasse a descansar e fosse se recuperar. Ele é muito cabeça dura”.
Folga garantida, ele, mesmo aos resmungos baixinhos de teimosia, quis o celular de volta para telefonar para seu pai. O senhor estava à trabalho. A mãe demonstrou remorso em se separar do filho quando Ernesto ligou para ela, mas a mulher não poderia ir conosco. Restou a nós apenas ir atrás de uma única pessoa. Eu, tendo a aparência de treze anos (argh), não era permitido a ir só na farmácia e fazer compras: Ernesto dificilmente daria a mão a torcer a me deixar sozinho fora de casa, apesar de eu ter vindo da rua. Era uma preocupação quase paternal, aproximando-se da fraternal, que eu queria com todas as minhas forças que fosse apenas amizade.
“Você pode ter mais idade do que eu, mas não deixo de pensar que você chegou a perder a sua infância. Alguém de fora que seja bom seria um começo de ter mais alguém pra ser seu amigo”, Jonny havia me dito e eu fico irritado o quanto suas intuições se achavam certas. Eu, agora Alexandre e naquele momento Bisteca, nunca tinha imaginado tendo uma infância perdida. Entretanto perto de Ernesto eu sentia como se eu tivesse treze anos de novo e com uma visão de futuro mais otimista. A disposição dele se tornara perigosa para mim. Era uma benção e uma maldição. Por outro lado, eu havia me afeiçoado a Ernesto tanto que eu mal percebi isso até semanas antes daquele dia. Eu desejava não ter aquela afeição que me prendia e ao mesmo tempo eu me via impossível de sair por querer estar perto dele. Foi por medo que eu me aproximei da porta vizinha do apartamento. Foi lá que eu primeiro falei com você, mas isso é uma história que prefiro deixar pra depois.
Eu sei que você está ansiosa para essa parte. Espera lá. Você sempre é curiosa assim?
Caham, vejamos. Onde é que eu parei? Ah, sim, naquela parte. É só um exemplo do que costuma acontecer pela teimosia desse homem. Você sabe o resto. Você estava lá conosco. A parte anterior foi minha conversa com o pai de Ernesto, mas acho que o que já falei está bom. Você está curiosa de novo. Você quer saber como consigo sangue e acho que isso é um assunto que eu não deveria comentar, mas...
Eu ainda tinha minhas vítimas na época até ser chamado de Alexandre. Ernesto tinha suas suspeitas sobre eu estar com uma doença grave: eu vomitava a maior parte da comida, como meu estômago não suporta muito alimento comum; “Você parece estar constantemente com anemia. Já vi seus lábios ficarem com cor, mas também vi muitas vezes ele e seus olhos parecerem brancos”; o toque na minha pele era frio e ele desconfiava ser algo em relação ao sangue, como leucemia. Ernesto se preocupava tanto com minha nutrição que fazia meu almoço junto com meu café da manhã e guardava na geladeira. “Olha, eu sei esquentar comida no fogão”, contei a Ernesto para que ele pudesse não se preocupar excessivamente. Eu me contive muito algumas vezes para não atacar nem ele e aos demais moradores do edifício ou seus amigos ou até seu pai. Algumas vezes, eu tinha que sair pela janela para fora e buscar meu alimento à noite. Não me olhe com essa cara. Sangue de animais pode ajudar, mas sangue de humanos me dava mais força. Sinto muito por isso, só que era minha necessidade. “Ainda é horrível”, você diz. Eu sei, eu sei.
Só que não fiquei assim por muito tempo. Uma hora ou outra a notícia, eu sabia, chegaria à Ernesto e aos demais moradores do edifício. Ele já desconfiava bastante antes da carteira de identidade, quando ele não tinha condições de ver um médico para mim, então imagine quando eu a finalmente recebi. Eu muitas vezes aparecia com cortes e queimaduras vindas de agressões na rua, o que preocupavam ele que não sabia das minhas idas secretas.
— Alexandre — eu me encontrava na frente do nosso computador de mesa — Nome de Alexandre Magno. Nome de um cara importante russo. Nome de vários caras na Bíblia. “Protetor do homem”, “o que repele os inimigos”, “defensor da humanidade”. Cara, por quê você ainda quis que eu me chamasse Alexandre mesmo?
— É nome de gente importante, eu já disse — Ernesto surgiu em seus pijamas no quarto que compartilhávamos, cansado após procurar como registrar meu CPF e também de terminar um relatório para a faculdade — E você tem essa cara de quem quer se meter em tudo.
— Oi, deixo bem claro que eu não gosto de aparecer — “E defensor da humanidade? Isso é muita ironia para um nome só” — Apenas considero por você ter dito que é nome de gente importante — digitei outro nome no Google, um sorriso meu de orelha a orelha, cliquei Enter e procurei entre os sites — Ernesto. Significa “Combatente sério”, “Combatente firme”, “O que batalha até a morte”. Você tem um nome que combina muito bem com você — apoiei meu cotovelo na escrivaninha e dei risada — Você teve essa cara séria desde o nascimento para sua mãe te nomear com Ernesto?
— Não sei — ele disse, o olhar sério sem querer ser sério e uma mão afagando o queixo — Era um nome de um escritor que mamãe gostava. É a versão aportuguesada só. Acho que minha mãe não teve essa intenção.
— Hã... Ernest Hemingway?
— Você leu sobre ele?
— Seu pai leu sobre ele.
— Ah, meu pai lê sobre ele mesmo — ele fez uma pausa, provavelmente rememorando que o homem tinha “Por quem os sinos dobram” no carro — Mas eu não sei se foi esse escritor.
— Minhas apostas estão todas nele, o cara é ilustre — cruzei os braços, ainda não convencido que eu estava sendo enganado pela minha intuição — Imagino que sua mãe queria um nome importante para seu próprio filho também e então pôs esse nome sem achar como seu filho seria.
— Combatente sério? — ele arregalou os olhos e fez uma risadinha — Eu não sou tão sério assim não, Bist—
— Opa. Alexandre — ele fez uma careta para o nada, provavelmente amaldiçoando seus velhos hábitos — Mas não fica com essa cara de inconformado não. Vai demorar para todo mundo se acostumar.
— Enfim — Ernesto se sentou na cama, uma das mãos apoiando o rosto jovem que foi envelhecido cedo demais — eu não sou sério.
— Não foi isso que eu vi quando você achou que tinha um incêndio na vizinha — estreitei meu olhar, sabendo que ele apenas teimava em se defender — Ou quando você achou que viu um gatinho que viu em um cartaz de “Procura-se”. E olha que próxima semana já é o Natal e acho que pra você é quase todo dia.
— Ok, posso ser sério demais, mas não a esse nível.
— Você deveria ver como você espanta os ratos e as baratas do apartamento — falei sarcasticamente, até um pensamento me iluminar — Outra coisa, Ernesto. Você não acha que não é hora? — nesse momento, ergui meus olhos para fitar os castanhos dele.
— Hora de quê?
Suspirei. Era algo que eu queria falar há muito tempo. Eu me ajeitei na cadeira e balancei minhas pernas, tendo a menor ideia de como falar disso.
— De conversar — soltei — É que algumas vezes acho que você precisa desabafar. Eu vi o olhar que você dirigiu ao túmulo de sua irmã. Você parecia muito triste. Eu queria dizer só que... Se você quiser chorar a qualquer momento e precisar de um ombro... Eu estou aqui, tá legal?
Ele me olhou com aquele olhar sério por dois minutos, fechou os olhos e balançou a cabeça.
— Eu não consigo chorar — Ernesto me disse com uma calma que demonstrava rachaduras — Acho que mesmo se eu quisesse, eu não choraria como eu precisaria.
— Ah, eu entendo — eu ainda o observei na iluminação do computador e de uma lâmpada atrás da cama, vendo-o sair e voltar com uma xícara de café amargo.
“Eu também desaprendi um pouco a chorar”, era o que eu queria dizer quando continuasse a conversa. Porém, Ernesto deu um gole do café e estalou a língua antes de dizer:
— Alexandre — o tom já me preparava: era uma notícia séria — vamos ter que ir com você para o médico.
Agora você sabe por quê na geladeira tem sacos de sangue doado e também sobre o porquê de cientistas estudarem a amostra do meu sangue nesse momento. Para todos os meus humanos, minha Imortalidade é uma mutação antiga das minhas células do corpo. Espero que eles consigam resultados com a pesquisa, assim eu posso estar perto do meu sonho.
Buscar minha humanidade de volta.
FIM DA SEGUNDA PARTE
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